.estátua.

Por Raphael Maéstri Gnipper

Não tinha nome. Não tinha casa. Mas tinha história. Se era a sua verdadeira história, não se sabe. Provavelmente era a única que conhecia. E provavelmente, a que acreditava que as pessoas ao menos parariam para ouvir e quem sabe, ao final dela, o recompensar com uma ou (que sorte seria, meu Deus!), duas moedas.

Mas não tinha tempo. Ou não tinham tempo para ele. Sentado na calçada, pernas cruzadas, pés sujos e descalços, e mão estendida em cumprimento a um ritual. De baixo para cima, via todos muito grandes. Se sentiu-se humilhado alguma vez, não se lembrava. Sabia apenas que precisava sobreviver, muito embora o saldo do dia raramente fosse suficiente para comprar uma garrafa de água.

Via carros, famílias, empresários apressados falando ao celular, namorados brigando, mães puxando os filhos que olhavam para ele curiosos e assustados. Via dias e noites passarem iguais. Para ele, ao menos.

Mas houve um dia diferente. No final desse dia nublado, em que a chuva começou a cair incessantemente, tomou uma decisão. Na verdade, a vida decidiu por ele. Entre trovões estrondosos, buzinas, risadas, e a mão estendida, o vento que arrebatava folhas, levantava vestidos das desavisadas e entortava guarda-chuvas, resolveu dar-lhe atenção. Levou-o embora da rotina.Levou-o embora da vida.E ninguém percebeu.

O tempo passou e seu corpo permaneceu no mesmo local. Mão estendida, rosto em súplica. Choveu, fez sol, nevou, choveu de novo, fez sol…. A pele virou pedra do mais puro branco. Os ossos, mármore. A expressão se congelou e ganhou uma profundidade que nunca tinha conseguido passar em vida.

Flashes, fotógrafos, mulheres em belíssimos vestidos decotados, homens em bem cortados ternos e gravatas das mais diversas cores, andavam pela galeria onde agora estava. Apontavam, aplaudiam, conversavam e admiravam a estátua sem autor. Tinham pago muito dinheiro para estarem ali. Para vê-lo.

De longe, do alto, da paz que alcançou, ele via a cena e refletia. A placa sob seus pés (ou o que ele foi um dia), dizia algo como “estátua” ou “obra de arte”. Mentira. Ele não era “estátua” ou “obra de arte” alguma.

Foi apenas…um homem.

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2 comentários sobre “.estátua.

  1. O triste traz uma beleza sem igual, demonstra a sensibilidade do autor. Parabéns, Rafael! Continua um grande escritor!

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