.o que aprendi com joão.

Quadro exposto no “The Internacional Museum of Children’s Art”, em Oslo – Noruega

Texto de Raphael Maéstri Gnipper

Baseado em fatos reais

Eram 5. Depois 7. Em pouco tempo 10, 15 pessoas em fila. O clima frio e chuvoso não era necessariamente propício para se estar à noite em uma praça. Caro leitor, você vai concordar comigo que seria muito melhor ficar em casa, assistir a um filme, estourar pipoca. O cheiro que dançava em círculos invisíveis e impregnava o ar, porém, denunciava aquele esforço coletivo. Era pão, salsicha, uma grossa camada de purê, ervilhas, tudo salpicado pela batata palha que se pintava de dourado à fraca meia luz da barraca. O leitor sabe que o ato de montar um cachorro quente é muito mais mecânico do que estou descrevendo mas, se me permitem a licença poética, o tornemos um pouco menos banalizado. Mais interessante. Talvez seja esse um dos grandes erros das nossas vidas. Não nos damos o simples prazer de encontrar nas coisas mais simples (e lá vem o clichê), a beleza ou admiração.

“1, 2, 3, 4, 10, 15, 20, 21…21 pessoas vezes R$2,50 dá…52 e pouco…É. Não é muito. Mas não tem só essas pessoas…E você pensa no gasto que ele tem…” explicava a mãe, professoral, ao filho – que não devia ter mais de 9 anos.

“É mãe, mas um dia eu passei aqui e vi o moço com três notas de cem na mão. Isso é bastante!” dizia o filho fitando a mãe com os grandes olhos pretos cheio daquela certeza que só as crianças tem.

A mãe riu. Por dentro eu também ri.

“Filhão, R$300,00 não dá pra nada.”

A essa hora, o menino já estava longe – mental e fisicamente. Corria pela praça escura com a despreocupação de quem tem a certeza de que está sendo observado e cuidado pela mãe.

“João, não quero você perto da rua!”. O alerta da mãe veio logo depois da bola de um grupo de garotos que jogavam futebol bem próximos a nós parar do outro lado da movimentada avenida. Não é preciso ser vidente para saber o que aconteceu depois. No caso de não ser tão óbvio assim, digo o que seguiu: Um dos garotos atravessou correndo a rua, ignorando carros e motos, para recuperar a redonda. Não fosse o reflexo do motorista, o final da história poderia ter sido trágico.

E ali estava João ao lado da mãe. Embora parado, mantia aquela  inquietação característica das crianças nessa idade. Balançava os braços, provocava a mãe e se dava aquele direito que também só as crianças tem de limpar o nariz na camiseta duas vezes maior que ele.  Chegou até mesmo a conversar, isso mesmo, conversar com um cachorro que, despreocupado, passava pela praça.

A chuva não dava trégua. A fila, apesar de diminuir, persistia com 8 ou 9 corajosos e, acredito, famintos “aguardantes” (e lá vem o neologismo). João não demostrava cansaço, fome, frio ou qualquer incômodo causado pelo tempo. Enquanto os adultos aglomeravam-se como podiam debaixo das copas das árvores e marquises de prédios, eu via João correndo de um lado para o outro, pulando de poça em poça. Decidi me arriscar debaixo da chuva também. No final das contas, aquela que era mais uma entediante espera pelo alimento, se tornou mais interessante do que eu esperava. João tinha chamado minha atenção.

Aqui, vamos dar um salto no tempo. Não vai ser muito grande, prometo. Vamos 20 minutos para frente. Nesse tempo, carros passaram, buzinas soaram, pessoas subiram e desceram dos pontos de ônibus e, em algum outro local do mundo, outras milhares de pessoas comiam, bebiam, dormiam, transavam, nasciam e morriam, como outro dia qualquer. No nosso cenário, no entanto, a situação permanecia muito parecida com o início da história: Cachorro quente. Fila. Chuva. E, é claro, João.

Passava das 9 da noite. O frio tinha dado uma trégua e a brisa fria dava o recado de que era hora de ir pra casa. Entre João e o tão desejado cachorro quente, restava agora apenas uma pessoa. O último obstáculo. Era visível que o menino, que se equilibrava na ponta dos pés para ver por cima do balcão, anseava pelo sanduíche. Os olhos não se distraíam com mais nada. Toda aquela vivacidade deu lugar a um João quieto e concentrado no seu “prêmio”. Se eu fosse mau, diria que João parecia um cachorro olhando para um frango assado na padaria. Como esse menino ganhou minha admiração (e você vai entender porque daqui a pouco), vou deixar nas entrelinhas.

Por um momento me distraí. Num piscar de olhos, João havia sumido. A mãe, visivelmente nervosa, procurava pelos cantos da praça sem encontrar o filho. Não sei se eram lágrimas ou se era a chuva que molhava seu rosto preocupado. Alguma coisa estava errada.

Observei a cena como quem assiste a um filme, torcendo pelo heroi e pelo final feliz. Tivesse esse momento uma trilha sonora, seria algo estrondoso provavelmente tocado por uma orquestra sinfônica, com muitos bams! de tambores, e tchpááás! de pratos. O movimento da sinfonia, no entanto, seria silenciado pouco tempo depois.

Em um banco, iluminado pela fraca meia luz de um poste velho, estava João. Não estava sozinho. Ao seu lado, projetava-se uma figura, menor que ele, envolta em roupas sujas e descalça. João estava feliz. Conversava, ria. A tal figura respondia muito pouco. Concentrava-se naquilo que tinha em mãos como um arqueólogo que encontra um tesouro perdido. Sua jóia preciosa era metade de um cachorro quente. A mãe observou a cena por um tempo. Deixou que o filho terminasse.  Feito isso, foi até o garoto, o pegou pela mão e, enquanto os dois se afastavam daquele banco, a tal figura – um outro menino mais ou menos da mesma idade de João – os observava. Seu rosto estava molhado. Não sei se pela chuva ou pelas lágrimas. João acenava para o outro amigo com a mão que não estava ocupada. E o outro menino acenava de volta.

Essa foi a cena final. Depois de comprar meu cachorro-quente, ainda consegui ver a tal figura indo embora pela rua escura. João já deveria estar em casa. Antes de sair, o ouvi comentando com a mãe que queria chegar logo em casa para assistir a uma maratona de desenhos na tv.

“Vá João!”, pensei. O menino bem nascido, naquele ato de inocência,  foi embora com meio cachorro quente nas mãos e com um amigo a mais naquela noite.

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