.o brado de um país que não existe.

 

A realidade inspira a ficção. Bem, disso todos nós já sabemos. Mas o engraçado nessa brincadeira de “faz de conta” é que muitas vezes é necessário que nos vejamos nas telas da tv, do cinema, nas páginas dos romances, dos quadrinhos para que possamos entender de verdade o que se passa ao nosso redor.

Há duas semanas tenho acompanhado a nova minissérie da Globo, “O Brado Retumbante”. Pra você que não assiste, basicamente a história é essa: Presidente e vice-presidente do país morrem em um acidente de helicóptero. Pela ordem natural das coisas, cabe ao presidente da Câmara governar o país até que novas eleições sejam convocadas. Paulo Ventura é o nome da vez. Mulherengo, conquistador e com um espírito de honestidade maior do que se espera para a média dos políticos brasileiros, o novo presidente enfrenta o desafio de assumir o país cercado (de perto) por inimigos. Nos 6 (de 8) episódios da trama crítica de Euclydes Marinho, Paulo já passou por um atentado à sua vida,  já enfrentou a resistência de uma oposição corrupta, uma iminente guerra internacional, a traição da esposa (a quem ele mesmo trai) e até mesmo a conflituosa descoberta de que seu filho é transexual. Nos últimos capítulos que vão ao ar hoje e amanhã, Paulo vai enfrentar acusações de corrupção e provar para a população que é sim honesto e íntegro.

Bem, Paulo não existe. O Brasil de Paulo não existe. A única parte real em meio à ficção do Brado é a corrupção. Nas cenas da minissérie vê-se um repeteco das reportagens dos telejornais. E estão todos ali. Os escândalos, as artimanhas, as manipulações…

Paulo é exceção. Uma exceção tão exclusiva que nos leva a crer que no Brasil real é tão verdadeira quanto o saci pererê. A onda de desonestidade que de tempos já vem assolando nossas vidas, invadindo nossas casas e atingindo desde as mais altas até as mais baixas instâncias do poder, nos atomizou. Nos instituiu a falsa ideia de que ser corrupto e desonesto é pré-requisito para entrar na vida pública. Essa mesma onda nos leva a crer que os raríssimos Paulos reais não passam de Paulos da ficção. Que não existem. Que são apenas uma brincadeira.

Na minissérie, Paulo quer provar sua inocência. A primeira dama, Antônia,  engajada nos assuntos do país, desarticulou um esquema de compra de livros que derrubou o ministro da Educação.  Isso tudo na ficção.

Na vida real, nenhum político se preocupa em provar que não é corrupto.  Já estão acostumados com o título e a cara de pau lhes serve muito bem. Na vida real, nenhuma primeira dama se preocupa com mais coisas do que vestidos e eventos sociais.  O único incomodo que ocorre é saber se sairam bem nas fotos dos jornais.

Vivemos num país que não é um conto de fadas. Muito pelo contrário.  O problema, meus caros, é trabalharmos e nos esforçarmos para que ele se torne o melhor possível.  Do contrário, faço minhas malas e parto hoje mesmo para o lindo Brasil da ficção.

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